VERGUEIRO – CONSOLAÇÃO                                                               Cristiane Brito 

 

 

 

São paulo, eu conheço aos flashes, em um tipo de experiência fragmentaria, a cidade aparece para mim como um feixe de luz instantâneo entre a escuridão de uma e outra estação de metro, este “espaço escuro entre uma luz e outra”, revejo em meu arquivo de imagens mental a idéia que guardo de cada “região”: uma área de no maximo 100 metros quadrados, alem da qual não sei onde cada rua vai dar, e que se renova e reforça a cada nova visita. são paulo, eu conheço as ilhas. entre consolação e vergueiro penso em contas a pagar, algumas obras de arte, vejo as roupas das pessoas. imagino aonde elas vão.

 

As cidades e seus elementos – casas, janelas, escadas, praças, postes de luz, detalhes arquitetônicos – surgem na obra de aline van langendonck como fragmentos da experiência perceptiva da artista, que os reordena em impressões (subjetivas e literais) do mundo. em suas gravuras em metal, o processo técnico é ampliado: após entintar a chapa de metal, a artista “limpa” apenas as partes do desenho que deseja revelar. o escuro, alem de “ausência de luz”, torna-se “presença de cor”, da silenciosa, solitária e sublime cor da “noite alta”.

 

Não é a penas a cidade, porem, o que aline nos apresenta, mas uma reflexão sobre o próprio desenhar. suas obras não terminam com a impressão ou com a aplicação de uma ultima pincelada: interferindo fisicamente sobre o papel, raspando-o em busca do seu branco original, aline vai de encontro à luz: “eu gosto muito de espaço, como o escuro que se estende ate encontrar uma luz, diferenças sutis de luzes que se aninham em vãos e aberturas arquitetônicas”.

Deste processo comum a seus desenhos, surge um conjugar de novos verbos artísticos. para desenhar, aline não somente passa lápis ou pinceis sobre uma superfície, ela também risca, limpa, raspa, pisa, varre, e encobre clarabóias de tinta preta só para então remove-la, sempre à procura de uma arquitetura luminosa, ao luz que atravessa o vidro e desenha o chão, da luz que é ativa e faz as coisas mudarem de cor, se em algumas obras são empregados materiais  tradicionais como o guache e a tinta óleo, em outras, nao é nem mesmo a tinta ou a fuligem que os carros deixam nas paredes dos túneis o que forma  o desenho, mas o espaço negativo, em que estas são removidas por uma espátula ou ate mesmo uma vassoura.

 

Depois de limpar um túnel, num movimento neolítico de pintura de cavernas, e de aplicar e raspar a tinta de uma clarabóia – como quem pinta a cúpula de uma igreja a – aline agora expõe uma serie de desenhos “raspados” sobre cartolina. para que os vejamos, é preciso que percorramos a sala escura e observemos o que o feixe de luz ora revela, ora oculta. se todo artista acaba sempre falando de is mesmo, o mesmo vale para nós, espectadores, estamos sempre a convidar os outros a percorrer nossos caminhos. abro o “mapa das artes” sobre o chão. as ilhas aumentam de tamanho. (a cidade nunca será minha – a cidade é da arte). e tomo o metro de volta, rumo a consolação.

 

CHRISTIANE BRITO, 2003

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